Síndica transexual mostra como é administrar um condomínio no centro de São Paulo

Transformando o condomínio

 

Marcela Volpato é síndica há cerca de um ano e meio, e atua no centro da cidade de São Paulo. Poderia ser mais uma gestora competente atuando em uma grande cidade como São Paulo. Porém, vale ressaltar que Marcela não é uma mulher comum. É uma mulher trans, casada, e em busca de novos condomínios e desafios nesse mercado – e que segue transformando seu entorno.

Transformando o condomínio

“Não dá para dizer que não senti discriminação na minha vida, e na minha trajetória como síndica, mas é algo que, hoje, consigo lidar melhor”, explica Marcela.

A síndica conseguiu levantar seu condomínio, que estava passando por um momento de dificuldade.

“O prédio tem 50 anos e estava bastante detonado. Parecia abandonado pela gestão. Havia muito rateio extra. E eu, que sempre trabalhei com comércio e com público, pensei que poderia trazer os meus conhecimentos para cá”, explica ela.

Gestão anterior e eleição

Após um ano e meio morando no empreendimento – ela já era proprietária da unidade há 12 anos – e convivendo com os desafios do local, pensou em se candidatar ao cargo de síndica.

“Fiquei sem saber se me candidataria, principalmente por conta de como as pessoas me viam. No final, quem fez campanha para mim foram as senhorinhas do prédio”, conta, orgulhosa.

A antiga gestão, porém, tomou uma medida que não foi bem recebida pela comunidade condominial.

“Houve um rateio aqui, de R$ 400 entre todas as unidades, para a retirada dos moradores de rua do entorno, algo a que me opus frontalmente. Chamei a mídia e denunciei a gestora ao Ministério Público”, conta.

Como o prédio de Marcela está bem no centro de São Paulo há muitas pessoas em situação de rua.

“Teve até abaixo-assinado de moradores do condomínio elogiando a ideia da remoção dos moradores, que, depois, virou apenas uma ‘conversa’ com aqueles que ficavam ao redor do condomínio”, pontua ela.

Depois dessa situação, a gestora decidiu fazer um curso de sindicatura profissional, para se preparar para o cargo. Com a ajuda das senhoras do condomínio, conseguiu se eleger.

Após a eleição

Quando pegou o condomínio, Marcela enfrentou diversos desafios – como o défict na conta do banco.

“Estávamos com R$ 20 mil negativos, algumas contas parceladas da Sabesp.

Agora, um ano e meio depois, temos R$ 100 mil guardados, sem fazer rateio extra”, conta.

Uma das primeiras medidas como síndica, foi rever uma série de contratos – e substituir o esquema da portaria.

“Achei estranho que o dono da administradora também era proprietário da empresa de manutenção e da terceirizada”, argumenta. Por isso, substituiu a portaria física por um esquema de interfonia e tags para a entrada dos moradores.

Com isso, ela alcançou uma economia mensal de cerca de R$ 15 mil – que usou para reforçar a segurança do empreendimento e do seu entorno.

“Os moradores aprovaram a mudança. Aumentei de 12 para 28 câmeras por aqui”, enumera.

Neste período ela também reformou os dois elevadores do empreendimento,está pintando a fachada e vislumbra melhorias para os portões também – tudo sem contar com rateios extras.

Problemas antigos e novas abordagens

Apesar das diversas melhorias trazidas pela gestão de Marcela, o entorno segue com os mesmos problemas.

“Há algum tempo, estávamos convivendo com uma gangue de meninos que roubavam celulares aqui, de bicicleta. Instalamos uma sirene que era acionada quando víamos a movimentação, para avisar não apenas os moradores, mas também quem estivesse na rua. Agora, começou um movimento diferente, de jovens maiores, que começaram a jogar pedras aqui. Por isso, suspendemos o uso da sirene e estamos buscando fortalecimento de todos os empreendimentos da área por meio do CONSEG (Conselhos de segurança)”, explica.

Outro ponto são as pessoas em situação de rua, que seguem frequentando as proximidades do condomínio.

“Como havia uma parte próxima com vegetação um pouco alta, achei bom apararmos. Deixamos o local bem cuidado evitou que essas pessoas utilizassem o local como banheiro”, conta.

Reeleição no condomínio

Marcela vislumbra, sim, a possibilidade de se candidatar novamente ao cargo.

“Vejo que já mudamos bastante coisa aqui no condomínio, mas muito mais pode ser mudado, melhorado. Seria legal ter a oportunidade dessa continuidade”, reflete.

Ao ser questionada sobre um dos melhores momentos da sua gestão, Marcela conta que ganhou uma festa surpresa ao completar um ano à frente do cargo.
“Ganhei uma placa e reconhecimento. Fiquei muito feliz”, conta ela.

Transformando o condomínio

“Ser trans e síndica é algo com que eu tenho que lidar todos os dias – assim como os moradores. Espero, porém, que eles percebam claramente as melhorias trazidas pela minha gestão”.

Mentora

Para Vanilda de Carvalho, síndica profissional que também atua no centro de São Paulo, as estratégias usadas por Marcela para botar seu condomínio no eixo foram muito inteligentes.

“A Marcela é uma ótima síndica e deve continuar fazendo um trabalho diferenciado”, elogia Vanilda, que Marcela considerada uma mentora no mundo condominial, e que também atua na região do centro de São Paulo.

Transformando o condomínio

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