Por Carina Alvarenga e Cinthya Okawa*

Você já pensou em resolver os conflitos do seu condomínio sem ter que valer-se do longo e desgastante processo judicial?

O que muitas pessoas ainda não sabem é que existem alternativas mais eficientes e menos onerosas para solucionar muitas das controvérsias e que são legalmente reconhecidas e fomentadas pelo Judiciário.

A mediação de conflitos é uma dessas alternativas e a mais indicada para questões condominiais. Através desse método de resolução de disputas é possível transformar desavenças em entendimentos, estimulando a conversa entre as pessoas e permitindo que relações que perdurarão no tempo não sejam prejudicadas por falta de alinhamento.

Em condomínios, a mediação pode ser amplamente utilizada tanto em conflitos já existentes, como de forma preventiva, evitando que desentendimentos venham a acontecer.

O objetivo é habilitar as pessoas a conseguirem resolver as suas questões de forma organizada e estruturada para que cheguem a um acordo que seja satisfatório para todos.

A atuação de um mediador profissional está focada na transformação positiva dos conflitos e tem como prerrogativa a produção de efeitos legais aos acordos atingidos, mas é possível também que o(a) síndico(a) se aproprie em sua rotina de algumas técnicas e ferramentas para auxiliar condôminos no ajuste de vontades e na conversão de interesses, mesmo que de maneira não formalizada.

A receita para não deixar que o ambiente do condomínio se torne insustentável é FICAR ATENTO aos sinais que demonstram que um conflito está se formando.

Ele pode começar como um simples desentendimento, onde surgem as primeiras incompatibilidades, como ideias ou propostas diferentes em torno da convivência.

Tais divergências, se não cuidadas, evoluem para uma evidente disputa: com o surgimento da polaridade de lados, onde a comunicação começa a ficar prejudicada e um lado já não quer escutar o outro.

A partir daí surge o que se chama de postura adversária, em que o outro é visto como inimigo e cujo propósito central se torna simplesmente prejudicá-lo.

Por fim chega-se à considerada zona de conflito danoso, em que despontam comportamentos agressivos e a questão inicial sequer é lembrada. As consequências, nesse ponto, passam a ser desconsideradas e o importante é sair vencedor sem que se saiba de fato o que isso significa.

Quanto antes o síndico puder atuar nessa situação evitando a escalada do conflito, mais rapidamente ele conseguirá reverter cenários potencialmente destrutivos, agindo de forma assertiva para garantir um ambiente condominial saudável e positivo.

Selecionamos por aqui algumas dicas que costumam funcionar bem para a equipe da Burithi Condo e que poderão ser aplicadas em diversos casos em que os ânimos se encontram à flor da pele:

• Separar as pessoas do problema: sabemos que na vida em condomínio as relações podem ser de muita colaboração… até o ponto em que as pessoas passam a confundir os problemas que surgem com os próprios relacionamentos. É nessa hora que a temperatura começa a subir e tudo se mistura – pessoas e problemas são tratados como uma coisa única. Em muitos casos, um comentário como “Seu cachorro late muito” pode ser entendido como um ataque pessoal.

Como um terceiro neutro envolvido na conversa que passa a se tornar difícil, o principal é deixar as pessoas falarem sobre O PROBLEMA e sentirem que são realmente ouvidas. A ideia aqui não é resolver a questão de pronto, mas dar espaço para a escuta, evitando o máximo possível as acusações e imputação de culpa.

• Concentrar-se no que está por trás das posições: em muitos momentos, pessoas em conflito passam a definir aquilo que querem, independentemente do que realmente precisam ou necessitam. A realização de perguntas que busquem entender o real motivo de um pedido ou o esclarecimento de uma demanda por parte de um morador podem significar a resolução de um impasse até então insolúvel.

Vide o exemplo de um vizinho que está a todo momento solicitando o encerramento de uma reforma e com reclamações constantes no livro de ocorrências sobre o caráter abusivo da obra ao lado, quando na verdade o que ele mais necessita é de silêncio para meditar durante uma hora pela manhã. Com uma simples pergunta (aberta) sobre a sua rotina e horários, esse conflito pode ser resolvido de forma a acomodarem-se algumas atividades dos prestadores de serviço.

• Conferir espaço para opções de ganhos mútuos: diante de um cenário que parece versar sobre escolhas limitadas (usar a vaga da garagem conforme a marcação realizada há mais de 10 anos ou não usá-la) as pessoas tendem a sair com uma sensação de que estão perdendo ou ganhando e em muitos casos, saem infelizes por falta de alternativas.

Porém, quando se oferece a oportunidade de se pensar em opções criativas, diferentes, inusitadas – como um verdadeiro brainstorming – é possível que condôminos em conflito tragam ideias surpreendentes e mecanismos de resolução até então impensados (uso da vaga segundo uma nova delimitação, por exemplo). Esse é um momento oferecido aos moradores em conflito para que seja produzido o máximo de ideias possível para resolverem um problema específico. Tende a ser muito proveitoso, se bem gerenciado.

Pelo que vimos até o momento, a boa notícia é que embora os conflitos sejam inerentes às relações humanas, dentro e fora do condomínio, eles poderão ser frequentemente positivos – verdadeiros agentes de transformação – quando tratados de forma adequada e consciente.

*Carina Alvarenga e Cinthya Okawa são advogadas e especializadas em mediação de conflitos em condomínios. São sócias da Buruthi.

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