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Administrando a Ocupação 9 de Julho

Carmen Silva recebeu o SíndicoLab e mostrou como é a vida em comunidade na Ocupação. Uma noite que não será esquecida tão cedo. Esse era o sentimento dos cerca de 40 síndicos após o giro completo pela Ocupação 9 de Julho, em São Paulo.

O evento foi a primeira experiência de imersão do SíndicoLab, que fez essa surpresa: combinou com os síndicos em um local próximo, dando a entender que iríamos a um restaurante. O que aconteceu foi uma aula sobre vida em condomínio, com direito a questionamentos sobre a moradia na cidade, inclusão social e novos modelos de vida em sociedade, além de uma honra:  fomos recebidos por Carmen Silva, síndica da Ocupação 9 de Julho e líder do Movimento Sem-Teto do Centro.

“Por que temos que morar tão distante, se já temos uma cidade toda pronta aqui no centro? Para que colocar mais concreto na cidade, se já não damos conta do que está pronto?”, questiona Carmen, adicionando que há um número absurdo de imóveis vazios no centro de São Paulo – e explicando que os mais pobres estão sempre sendo empurrados para as periferias, longe dessa infraestrutura tão rica já existente na região central.

Sim, são edifícios inteiros sem cumprir sua função social: abandonados tanto por estados, municípios ou União – e também pela iniciativa privada. Locais que estão com seus impostos atrasados e que, antes vazios, se tornam moradia para famílias em vulnerabilidade social através do trabalho duro e da luta de movimentos sociais como o MSTC.

Só na Ocupação 9 de Julho são cerca de 500 pessoas e 129 famílias, distribuídas em 14 andares e que vivem em um esquema de respeito e organização que deixou os síndicos profissionais convidados para esta experiência de imersão espantados e encantados.

Sabe-se que São Paulo enfrenta um défict habitacional sério, não é de hoje. O Prefeito Ricardo Nunes, em entrevista ao SíndicoLab, já avisou que reformas em edificações no centro da cidade de São Paulo devem ficar mais em conta – uma forma de incentivar os cuidados com os prédios do centro e evitar que os mesmos sejam abandonados.

Vivendo em uma ocupação

“Aqui ninguém invadiu nada, ocupamos uma imóvel que estava há anos sem cuidados”, esclarece Carmen.

E o que não faltam são cuidados atualmente. É difícil não se impressionar com como tudo funciona por aqui – e também não se sentir inspirado pela organização coletiva de todos os espaços.

“Cada andar tem um mediador, que colabora com o diálogo caso haja problemas com os moradores e é quem faz a ponte com a administração. Temos também diversas comissões de moradores, que colaboram na gestão do local. A nossa contribuição mensal é de R$ 220 mensais, que usamos para fazer reformas, portaria, advogado, contador e impostos”, explica Carmen.

Diferente dos condomínios comuns, na Ocupação 9 de Julho há diversos outros requisitos para morar aqui. É preciso ter cartão da UBS, título de eleitor e filhos matriculados na escola.

Ocupação é um local onde você encontra os seus direitos, mas entende também os seus deveres. Semana passada tivemos aqui o treinamento da Brigada de Incêndio, com o comparecimento de cerca de 100 pessoas”, exemplificou Carmen.

Você, síndico profissional, qual a porcentagem de moradores que compareceu ao último treinamento de Brigada de Incêndio?

As áreas comuns são grandes e numerosas por aqui: há um espaço de geração de renda para os moradores, um brechó, brinquedoteca, sala de marcenaria, cozinha coletiva e refeitório, sala de convivência, horta, biblioteca, galeria, quadras, horta e estacionamento.

A cozinha, aliás, nos momentos antes da pandemia abrigava almoços mensais que eram servidos nas áreas comuns da ocupação e preparados por chefs renomados.

Hoje, já é possível comprar com antecedência a sua refeição para comer lá mesmo, retirar ou receber em casa os pratos dos chefs convidados aos domingos na @cozinhaocupacao9dejulho . Cada prato custa R$ 35 e, ao comprar uma refeição, outra é doada para pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Como a sustentabilidade também é importante, Carmen nos contou que sairiam da horta do empreendimento as beterrabas para o próximo almoço. O espaço muito admirado durante a visita.

Outro ponto focal de qualquer condomínio são as quadras. Mas, para a surpresa dos visitantes, elas estavam vazias no dia da visita: uma sexta-feira de noite agradável, em que as crianças poderiam com certeza estar batendo uma bola.

“As crianças estão ‘de castigo’ e não podem usar a quadra, já há quase um mês”, apontou Carmen. A medida foi tomada porque os pais não desciam com as crianças que, sozinhas, brigavam entre si ou não respeitavam as regras de convivência do condomínio.

( Os visitantes ficaram muito intrigados neste momento. O espaço estava vazio, mas a quadra não estava trancada. Tudo é conversado, explicado e respeitado)

É dever dos pais estar junto dos filhos. Não podemos nos responsabilizar pelas crianças em todos os ambientes, principalmente as menores”, conta Carmen, que explicou que a varrição das áreas comuns – inclusive dos andares e de áreas como a quadra – também é de responsabilidade dos moradores.

Além das suas obrigações, os moradores da Ocupação 9 de Julho contam também com reforço escolar, dentistas e médicos da UBS que atendem os moradores no local, assistência social, parceria com universidades e diversas outras ações.

Ocupar como um ato de resistência

 

Administrando a Ocupação 9 de Julho

Visitar um espaço como a Ocupação 9 de Julho provocou no nosso grupo uma gama de reações. Todos ficaram surpresos, perplexos e interessados em como é possível morar – e principalmente gerir – um condomínio dessa forma, considerado um modelo para todos nós.

Vimos que é possível, e como é desejável, quando os moradores realmente se engajam na participação da administração do local onde moram, e como isso dá frutos a olhos vistos: um espaço melhor para morar, mais seguro, e que reflete esta responsabilidade coletiva.

“Foi, uma sexta-feira diferente, que deu muito o que pensar para os síndicos profissionais do SíndicoLab. Com certeza, cada um levou um aprendizado diferente e que vai impactar na gestão dos seus condomínios, bem como nos modelos e conceitos sobre moradia e inclusão social”, aponta Marcio Rachkorsky.

Confira algumas imagens do encontro:

*Fotos de Anna Bogaciovas

Administrando a Ocupação 9 de Julho

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